A Galinha Perdida

14-10-2011 14:35

A Galinha Perdida

Esta galinha tinha-se distraído e avançara para longe do pátio do quintal. Bica aqui, bica acolá, à cata do escaravelho cascudo ou da minhoca tenra, perdera-se das companheiras e ai que desceu a noite. 
Por prudência, não se aventurou por descaminhos, ao calhar, apesar de a Lua prometer boa companhia. 
- Mais depressa chegarei amanhã, à primeira luz do alvorecer - disse de si para si a galinha. - Ainda se tivesse pintos à minha espera, arriscava, mas como os últimos que tive já cantam de galo, não me ralo. 
Procurou poleiro num ramo alto de uma árvore e, lá chegada, aninhou-se, nem que estivesse em casa. 
Ela a fechar os olhos de sono, quando sentiu uma restolhada, na base do tronco. Por prudência, saltou para um ramo mais acima e esperou, de olhinho alerta. 
Era a raposa, que farejava presa de apetite. 
- Senhora galinha, onde está que não a enxergo? 
- Estou onde estou e bem muito obrigada - respondeu a galinha, que não estava para conversas. 
- O seu estado põe-me em cuidado - persistia a velhaca. - Com esta aragem da noite, ainda apanha um resfriamento. 
- Não se preocupe e vá à sua vida, senhora raposa. 
- Preocupo-me e muito. Anda tanta humidade no ar, que não há melhor abrigo do que a capoeira. Quer que lhe indique o caminho? 
A galinha nem respondeu. Teimava a raposa: 
- Além do mais há o perigo das cobras? Se fosse a si descia donde está. 
A galinha nem tugiu. 
- O que mais me aflige é a sua saúde. Aí em cima, parada ao frio, constipa-se, engripa-se, ganha febre? Não terá já? 
- Sou capaz de ter - disse a galinha, só para dizer qualquer coisa. 
- Então desça que eu lhe tiro a temperatura e ausculto e examino a garganta. Tenho estudos de medicina veterinária, não sabia? 
- Desculpe, senhora raposa, mas eu só me consulto com o meu médico - disse a galinha, rindo-se por dentro. 
- E quem é que a assiste, pode-se saber? 
- É o Fiel, o cão da quinta, que eu mandei chamar e está aí não tarda. 
A raposa alarmou-se: 
- E ele virá? 
- Já o oiço - disse a galinha. 
- Sendo assim, vou-me embora eu, que não gosto de fazer concorrência a colegas de profissão. 
E a raposa fugiu, de rabo entre as pernas. 
Mais sossegada, a galinha escondeu a cabeça na asa e adormeceu. Nem sempre a raposa é a mais matreira?

 

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