A Rainha das Pêras - DIA MUNDIAL DA ALIMENTAÇÃO

17-10-2011 19:07

A Rainha das Pêras

As pereiras dão peras. Não é novidade. Estranho seria se as pereiras dessem maçãs. Mas esta não é uma história vulgar. 
Efectivamente, na pereira para onde nós apontámos a história não nasceram maçãs nem uvas nem romãs. Nasceu apenas, entre outras peras que não mereciam especial atenção, uma pêra e peras. Enorme. Gigantesca. Uma senhora dona pêra. 
- Parece uma abóbora - disse o dono do pomar para a mulher. - Se não a amparamos, parte o tronco. 
A pereira gemia ao peso da pêra fenomenal. Toda inchada para um lado, também era um fenómeno que ainda se não tivesse partido. 
Para reequilibrar a árvore, o dono do pomar trouxe um banco que pôs debaixo da pêra. Assim apoiada, a pêra cresceu e engordou que metia impressão. 
- É uma pêra sentada num banco - diziam as outras peras, umas invejosas. 
A notícia da pêra gigante chegou aos ouvidos do rei. Até lhe contaram que a pêra era tão grande, tão majestosa, que para ela tinha armado um trono, à beira da árvore donde provinha. Uns exagerados. 
- Se ela é a rainha das peras tem de vir para a mesa do rei - ordenou o monarca, que era um glutão, talvez até o rei dos glutões. 
Trouxeram-na numa padiola, suportada por dois homens. 
O rei, que estava no desfecho de um banquete - só faltava a fruta -, o rei espantou-se. 
- Descasquem-na - ordenou. 
Três criados, armados de grandes facas, demoraram uma hora na operação. A pêra sumarenta e suculenta foi posta numa imensa travessa, diante do rei. 
- Ainda cá estou - disse o rei, espreitando por trás da pêra. 
Já não era o rei, mas a pêra que presidia o banquete. Todos os cortesãos olharam para a cabeceira da mesa, aguardando a continuação da história. 
O rei pegou numa colher e espetou-a na polpa da pêra. Depois, provou. Provou e fez uma careta. 
- Está verde - disse. 
Um Ah! de desolação prolongou-se, em coro, pela mesa fora. 
- Está verde - disseram todos os cortesãos, fazendo um ar muito desconsolado. 
A pêra tinha sido colhida antes do tempo. 
Por culpa da precipitação do rei, que exigira a pêra à sua mesa, ninguém se preocupara em saber se a pêra já estava na conta. E, agora, era tarde. Não podiam voltar a pendurá-la na árvore. Era uma pêra desperdiçada. Era um enorme desperdício. 
Enterraram-na no jardim, depois de os jardineiros terem cavado um fundo buraco. 
Anos depois, floresceu uma pereira naquele sítio. Como? Porquê? A memória do rei e dos cortesãos era muito curta. 
Mas o príncipe, filho do rei, passou por ali e colheu uma perinha madurinha. Provou. Gostou. E não se esqueceu. 
Passou a pedir para a sobremesa as peras daquela pereira do jardim. 
O príncipe cresceu. Ganhou corpo. Fez-se um belo rapaz, um mocetão desempenado e atlético. Generoso, risonho, afável. E são como um pêro. Ou uma pêra?

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